| ORATÓRIO
DA CRUZ PRETA
Trecho da
ata da 5ª sessão regimental do Instituto Histórico
e Geográfico de São Paulo, realizada a 21 de Março
de 1927, extraído do volume XXXIV da revista do mesmo Instituto
– pg. 732/3.
O instituto, representado por uma comissão, visitou a 1º
do mês corrente o "Oratório da Cruz Preta"
que se ergue, seguramente há quase um século, no caminho
velho da Penha a São Miguel.
... e afirma ser a devoção
da Cruz Preta do Caminho Velho de São Miguel, não
menos interessante e curiosa, se não pela origem, menos pela
natureza do Altar elevado ao Santo Lenho.
Trata-se do aproveitamento do côncavo de uma árvore
aberto na altura de 1,20 cm de acima do solo e onde a devoção
popular colocou, convertendo-o em nicho ou altar, uma tosca e pequena
cruz, outrora preta e presentemente azul: "uma cruz pequititita
mas muito milagrosa" na frase pitoresca e na convicção
sincera e inabalável do velho "Paranaguá",
crioulo do sítio que lhe conferiu a autonomasia e onde nasceu,
contando hoje 73 anos de idade.
A ele deve a comissão, um punhado de informações
de interesse quanto ao espécime derradeiro da Cruz Preta
e, a constituição do singular Oratório.
Desde que se conheceu por gente, informa o velho Paranaguá,
assistiu as rezas da Cruz Preta. Puxadas pelo capelão Pedro,
velho "crioulo do Arujá" hoje de idade de 114 anos.
O nicho curioso foi cavado no tronco de corpulenta árvore,
no tempo em que o caminho para São Miguel cortava o local,
a floresta virgem: derrubada esta a golpes de machado do trabalhador
caboclo, apenas permaneceu ereta, espécime derradeiro da
mata secular, campeando solitário no centro dos cultivados,
a árvore-capela respeitada, por isso mesmo pela mão
do homem.
Afinal, é a árvore privilegiada vítima do próprio
isolamento, vendo a sua pujante copada abatida por irreverente raio
que a cortou pelo tronco e na altura precisa para deixar intacto
o nicho e incólume a cruz milagrosa que ainda lá se
conserva.
Mãos devotas que levantaram uma capela para resguardo do
nicho tradicional, mas deixando, por lamentável inadvertência,
a base do tronco, já morto, exposta às intempéries
e as formigas que nela se vão instalando comodamente e aos
poucos minando-a em vasto formigueiro...
Em 15 de Agosto de 1939,
a Companhia Comercial e Imobiliária de São Paulo,
proprietária da "Vila Robertina" onde se acha –
"Oratório da Cruz Preta", concluiu as obras de
reforma da capelinha, abrigando então a base do tronco acima
referido.
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